Se você perdesse 20% do seu coração, você ficaria tranquilo(a)? Podemos traçar esse mesmo paralelo com o pré-diabetes: o diagnóstico é um sinal de que parte do pâncreas está sendo perdido.
A condição abrange o período que antecede o desenvolvimento do diabetes. Ela costuma evoluir por cerca de 7 a 10 anos, mas já começa a provocar prejuízos à saúde nesse meio tempo.
“Se a pessoa chegou ao diabetes, é porque alguém não identificou o pré-diabetes ou, se identificou, não tomou nenhuma atitude. Essa janela de tempo é fundamental, e é nela que precisamos atuar para evitar a progressão da doença”, alerta o médico endocrinologista Dr. Luciano Giacaglia (CRM 70676-SP/RQE 46313), coordenador do Departamento de Pré-Diabetes e Diabetes Tipo 2 da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).
Classificação do pré-diabetes
Enquanto o diabetes tipo 2 é uma doença crônica causada pela dificuldade do organismo em usar a insulina de forma eficaz (a chamada resistência à insulina) ou devido à produção insuficiente desse hormônio; o pré-diabetes é uma condição em que os níveis de glicose também estão elevados, mas não o suficiente para serem diagnosticados como diabetes.2,3
Existem algumas maneiras de diagnosticar a condição:

- Através da medição da glicose de jejum: a pessoa fica de 8 a 10 horas em jejum e tem uma pequena amostra de sangue coletada. Se os níveis de glicose não passarem de 99 mg/dL, os valores estão dentro dos índices considerados adequados. Se ficar entre 100 e 125 mg/dL, ela tem pré-diabetes e, se passar de 125 mg/dL, ela tem diabetes3.
- Através da medição de glicemia de 1 hora no TTGO (Teste Oral de Tolerância à Glicose): a pessoa toma 75g de glicose líquida e mede a glicemia após 1 hora para ver como o corpo reage a uma grande carga de açúcar. Se o valor for abaixo de 155 mg/dL, está dentro dos índices normais. Se estiver entre 155 e 208, indica pré-diabetes. Se for igual ou maior que 209, é diabetes.
- Através da medição de glicemia de 2 horas no TTGO (Teste Oral de Tolerância à Glicose): funciona da mesma forma, mas a medição é feita após 2 horas para avaliar quanto açúcar o corpo conseguiu retirar do sangue. Se der menos de 140 mg/dL, os valores estão normais. Se der entre 140 e 199, é sinal de pré-diabetes. Se der igual ou maior que 200, indica diabetes.
- Através da medição da hemoglobina glicada (HbA1c): a pessoa faz um exame de sangue e o laboratório avalia a média das glicemias dos últimos três meses, demonstrando o resultado em porcentagens de hemoglobinas ligadas à glicose. O normal é até 5,6%. De 5,7 a 6,4% é considerado pré-diabetes e acima de 6,4% é considerado diabetes3.
“Hoje, sempre que fazemos o exame, precisamos ter pelo menos dois resultados alterados. Podem ser dois exames diferentes ou o mesmo exame repetido em momentos distintos. A gente nunca fecha diagnóstico com base em apenas um exame”, pontua o Dr. Luciano Giacaglia.
Se o diabetes já é considerado uma doença silenciosa, o pré-diabetes é ainda mais. As alterações nos exames não provocam nenhum sintoma. Por isso, a busca pelo diagnóstico deve ser ativa, principalmente em quem possui fatores de risco.
Quem está mais sujeito ao pré-diabetes?
“Algumas características aumentam o risco [de pré-diabetes], como sedentarismo, obesidade, hipertensão, e, no caso das mulheres, a síndrome do ovário policístico e o diabetes gestacional, mesmo que o quadro tenha desaparecido depois”, elenca o Dr. Luciano Giacaglia.

Atualmente, o rastreamento é recomendado para adultos com sobrepeso ou obesidade que apresentem pelo menos um fator de risco adicional para diabetes tipo 2, como ter casos prévios da doença na família, justamente porque o diagnóstico da doença vem ocorrendo em idades cada vez mais precoces. Antes dos 35, pessoas com histórico familiar da doença ou sinais de alterações metabólicas que indiquem risco de desenvolver diabetes também podem começar a investigação3.
Na dúvida se deve ou não realizar o rastreamento, o indivíduo pode fazer o teste de risco no site Antes Que Vire* a fim de saber se corre o risco de desenvolver a condição.
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Pré-diabetes já compromete a saúde
O grande problema é que muitas pessoas não encaram o pré-diabetes com a gravidade que deveriam, como se o quadro não fosse sério até que se torne diabetes. No entanto, a condição já promove prejuízos à saúde do paciente.
O pâncreas possui as chamadas células-beta, responsáveis por produzirem insulina. Cada ser humano nasce com um número específico dessas células, o qual leva – ou deveria levar – até o fim da vida. Existe ainda uma “reserva de emergência”, cerca de 20 a 30% a mais de células pancreáticas do que realmente precisamos. Mas nenhuma dessas células se regenera. Se forem perdidas, não há volta.
O Dr. Luciano Giacaglia explica que o diabetes, portanto, pode destruir mais de 50% dessas células, deixando o pâncreas com a sua funcionalidade limitada. Ainda de acordo com o médico, o pré-diabetes também promove uma perda de aproximadamente 20 a 30%, destruindo exatamente aquela reserva funcional do pâncreas.

“Outro ponto importante: hoje se sabe que ¼ das pessoas com pré-diabetes já apresenta complicações crônicas típicas do diabetes. Por exemplo, comprometimento da retina que pode levar à cegueira no futuro; comprometimento dos rins, que pode evoluir para necessidade de diálise e comprometimento dos nervos, que está muito associado ao risco de amputação de membros”, acrescenta o coordenador da SBD.
Além disso, parte delas pode demonstrar algum grau de aterosclerose, doença inflamatória crônica que aumenta o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Tratamento deve ser imediato
“Ou seja, não é uma condição simples e tranquila, que possa apenas ser observada. É algo que exige atuação imediata, porque esses indivíduos já estão doentes”, destaca o Dr. Luciano Giacaglia.
Segundo o especialista, o tratamento consiste na mudança de estilo de vida, promovendo alimentação balanceada, atividade física frequente, higiene do sono, controle do estresse e acompanhamento médico regular. Parar de fumar e reduzir o consumo de bebida alcoólica também ajuda.

“Se não houver resultado, seja porque o paciente não consegue aderir ou porque, mesmo fazendo tudo certo, a glicemia não melhora, aí sim usamos medicamentos. Eles são basicamente os mesmos que utilizamos no tratamento do diabetes. Hoje, temos medicamentos que comprovadamente ajudam a prolongar a vida útil do pâncreas. Com isso, conseguimos estagnar a doença e evitar que o indivíduo evolua para o diabetes”, afirma o médico.
O tratamento de outras doenças crônicas associadas, como hipertensão arterial e colesterol alterado, é essencial3.
O diagnóstico de pré-diabetes possibilita uma janela de oportunidade, permitindo aos pacientes a adoção de cuidados para o controle da glicemia. O objetivo do tratamento, portanto, é impedir que o pré-diabetes avance para um ponto sem retorno: o diabetes1,2.
Veja também: Como os Agentes de Saúde colaboram com o tratamento para diabetes?
*Este teste não realiza diagnóstico. As informações nele contidas não substituem, de forma alguma, a orientação médica.
**O pré-diabetes pode ser revertido quando as mudanças no estilo de vida forem constantes e vigorosas, ou através do uso de medicamentos. Para ambos os casos um profissional de saúde deve ser consultado. Consulte seu médico, mantenha seus exames em dia.
Referências: 1. Aroda VR, Knowler WC, Crandall JP, et al. Metformin for diabetes prevention: insights gained from the Diabetes Prevention Program/Diabetes Prevention Program Outcomes Study. Diabetologia. 2017;60(9):1601-1611. 2. Knowler WC, Barrett-Connor E, Fowler SE, et al. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. N Engl J Med. 2002;346(6):393-403. 3. Melanie Rodacki, Roberta A. Cobas, Lenita Zajdenverg, et al. Diagnóstico de diabetes mellitus. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024). DOI: 10.29327/5412848.2024-1, ISBN: 978-65-272-0704-7.
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